A Componente Humana na Gestão de Projetos

By on June 13, 2014
A Componente Humana na Gestão de Projetos

Li recentemente o livro, autobiográfico, Vida em Mim de Nuno Lobo Antunes. O livro é uma reflexão humanista da vida quotidiana de um pai, marido e médico de crianças, e do impacto que o seu passado, memorias e vivências, têm na forma como lida com os doentes e famílias, as suas angústias, as suas necessidades, a sua dor…..

Vem isto a propósito de uma das áreas mais importantes da gestão de projetos de desenvolvimento de software, que embora fundamental é na maioria das vezes esquecida – a componente humana (componente humana, neste artigo, não se limita à vertente de recrutamento, mas sim à gestão de pessoas numa equipa). É um cliché dizer que um projeto é uma empreitada humana, mas é um cliché que tem de ser repetido até que o seja percebido em toda sua complexidade, e não o tem sido. Não poucas vezes, o gestor de projeto limita-se a gerir a relação homem mês expectável para cada uma das tarefas, a acertar prazos, a responder ao cliente e a colocar pressão sobre a equipa. Estas atividades, importantes, são notoriamente insuficientes. Ao focar apenas nelas o gestor de projeto está a tentar transformar a “empreitada humana” numa ciência exata, previsível e automatizada, tudo o que um projeto não é!

É a componente sociológica e humana que a maioria dos gestores de projeto não domina ou não tem em consideração. Negligenciar este importante aspeto tem, na grande maioria das vezes, um impacto muito negativo nos resultados que se pretendem obter com o projeto. As razões para tal alheamento são variadas, mas as mais comuns são descritas, de forma contundente, por Tom Demarco no clássico Peopleware de 1983. E resume-se à frase “Make a cheeseburger, sell a chessburger”. Nesta alegoria Demarco, engloba diferentes aspetos que variam desde a diferença entre atividades de desenvolvimento de software e a produção de outros bens, a dificuldade em aceitar experiências, a incapacidade de a gestão perceber que o desenvolvimento de software não é uma área em que as pessoas sejam trocadas sem que haja um turn over considerável, até ao aspeto da formação e do conhecimento dos gestores.

Pare de ler! Foque a sua atenção no gestor do projeto, ou líder de equipa, que o gere e responda à pergunta: Qual é a formação do gestor? A maioria dos gestores de projetos são pessoas com formação e competências na área técnica, dai as suas apetências, conhecimento e à vontade, não incluir a sociologia enquanto disciplina. De uma forma simples e direta – o seu foco é na tecnologia, na área financeira, na gestão de riscos, na gestão de tempos, na garantia de processos e não nas pessoas que fazem o projeto. Na área de ICT o trabalho é fundamentalmente conseguido através do exercício de características como a criatividade, a capacidade de resolução de problemas, a capacidade inventiva, etc.

Assim como o médico, autobiografado no livro Vida em Mim, também o gestor tem de se recorrer do seu passado, enquanto ser humano, das suas vivencias, das suas mais variadas experiencias,angustias e necessidades mais intimas, para que possa, de uma forma eficazmente, gerir compromissos, satisfazer necessidades, muitas vezes não comunicadas de forma explicita pelos elementos da equipa, com o objetivo final de tirar o melhor de cada individuo que faz o projeto acontecer.

Ricardo Azevedo Pereira

Mestrado em Internet Computing pelo Queen Mary College, University of London - Reino Unido, em 2006 e Licenciado em Engenharia Informática e Telemática na Universidade de Aveiro é atualmente Gestor de Produto e responsável pela gestão da equipa de Gestão de Identidades e pelo trabalho de transferência tecnológica proveniente de projetos de I&D Europeus e Nacionais para as Business Units da PT Inovação e Sistemas. Tem estado envolvido em diversas propostas e projetos europeus e nacionais, tendo várias contribuições científicas relevantes nas áreas de Segurança e Cloud. Tem, ao longo dos anos, sido responsável pela coordenação de vários projetos principalmente nas áreas de Segurança e IdM. Tem participado ativamente em organismos de normalização, na área da segurança e IdM, em particular no TMForum Enterprise Security Team, GSMA Personal Data WG e na iniciativa ETSI ISG Identity and Access Management for Networks and Services, da qual foi cofundador e vice-chairman. Linkedin profile.

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